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Entrevista com Expert

Por quê é tão complicado associar a velhice à beleza e à saúde? Esclareça essa e outras questões aqui!

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  • "A mulher que cuida de seu interior envelhece melhor"

    A vida segue para todo mundo. Mas, quando chega aquele momento em que as marcas do tempo começam a ficar visíveis no rosto, no corpo, nos cabelos, muitas brasileiras perdem o chão. Por mais que sejam modernas, cultas e bem sucedidas, é difícil, para elas, aceitar que a juventude ficou para trás e enxergar na maturidade a leveza, a plenitude e o descompromisso saudável que também fazem parte dessa rica etapa de nossas vidas. Uma pena.

    "A velhice vem de dentro para fora", alerta a psicóloga Odair Perugini de Castro, coordenadora da Universidade para a Terceira Idade (Uniti), programa especial do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A estudiosa conta que, quando começou a trabalhar com as senhoras que fazem parte do programa, várias se recusavam a revelar a idade.

    Hoje, ativas, integradas e desencanadas, elas voltaram a comemorar seus aniversários e "remoçaram", orgulhosas de tudo o que a vida lhes proporcionou e ainda proporciona. Segundo Odair, o envelhecimento não precisa ser tabu - o segredo é colecionar experiências durante a vida, transformá-las em conhecimento e jamais deixar de aprender.
    Confira na entrevista a seguir:

    • O que é envelhecer para a brasileira?
      O que percebemos é uma relação difícil, de grande conflito, de pouca aceitação. Envelhecer é sofrido. A mulher brasileira se preocupa demais com a opinião alheia e não enxerga a experiência bonita que é envelhecer. Estamos lidando com a nossa vida quando envelhecemos. A brasileira precisa compreender que o envelhecimento faz parte da condição humana.

    • Que idade é "velha" para a brasileira?
      Essa é uma questão muito subjetiva. Depende das experiências que ela teve, de como foi educada, do estilo de vida que leva, das relações sociais que cultiva. É possível sentir-se idosa aos 40 e muito jovial aos 70... Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a chamada "terceira idade" começa aos 60 anos nos países em desenvolvimento, mas esse conceito está sendo abandonado. Atualmente, os 60 são um momento de muita juventude e energia, pois temos a possibilidade de viver até os 100 anos!

      Um exemplo disso é a quantidade de pessoas com mais de 80 anos que atendemos na Uniti. Há 15 anos, eram apenas uma ou duas, hoje, são cerca de 15. Os 80 correspondem à faixa etária que mais cresce no Brasil.

    • Até que ponto o relacionamento com outras mulheres interfere nesse processo de autoconhecimento e autoestima na terceira idade?
      Para exercitarmos e construirmos a nossa autoimagem e a nossa autoestima é necessário observar o comportamento das outras pessoas, não só na terceira idade, mas especialmente nessa fase da vida. É preciso cultivar relações saudáveis e aprender a romper com certos padrões, como, por exemplo, a crença de que as mulheres são invejosas. Se há competição, então vamos tentar trabalhar esse contexto. Vamos cuidar de nosso interior. A mulher que se dá conta disso envelhece melhor.

    • Por que é tão complicado associar a velhice à beleza e à saúde?
      Porque a sociedade é preconceituosa. Repare que, apesar de a mídia ter descoberto um nicho na terceira idade, dificilmente vemos imagens de pessoas idosas numa sala de aula, por exemplo, adquirindo conhecimento, discutindo os assuntos do momento. O preconceito diz que o velho não é capaz de aprender - é, sim, desde que tenha saúde.

      Felizmente, muita coisa já está mudando. Hoje, é normal que idosos façam trabalho voluntário, o que não era muito comum há alguns anos. E existem empresas que, para determinadas funções, preferem contratar "veteranos". A OMS diz muito que, à medida em que envelhece, a pessoa não pode deixar de ser ativa, principalmente intelectualmente. A mulher que se inova, que pensa diferente em momentos diferentes, é capaz de contribuir para esta fase de mudanças pela qual estamos passando.

    • De que forma a brasileira percebe o passar do tempo?
      Fisicamente, as perdas existem, elas marcam o nosso corpo. São as rugas, por exemplo. A brasileira tem de aprender a perceber não só essas perdas, que são evidentes, mas também os ganhos que a maturidade traz. Assim: "Maria não tem mais tanta força, mas pode ser ágil". A idade chega de dentro para fora. Por isso, psicologicamente, há um grande perigo. Quem não admite o envelhecimento vive em situação de angústia, ansiedade e depressão. Acredito que a depressão seja a doença do século porque falta às pessoas a consciência de que viver é envelhecer.

    • No contexto em que vivemos, o que fazer para encarar essa etapa da vida de maneira positiva?
      Ser um pouco egoísta. Cuidar de si, ler coisas interessantes (filosofia, psicologia...), aumentar o conhecimento. Ter bons amigos, uma vida social saudável. Admitir que é preciso exercitar a resiliência, ou seja, a capacidade de suportar conflitos e sair melhor deles. Continuar a vida valorizando cada experiência e entendendo que há uma dimensão humana maior, que é a espiritualidade - esse algo mais que faz com que valorizemos as coisas boas da vida.

      A mulher brasileira deveria ter orgulho de viver e de poder conviver e entender que ninguém sobrevive só. Devemos reconhecer as bobagens que fazemos e tratar de acertar em uma próxima vez. Pode parecer óbvio, mas, na prática, não é.

      Odair Perugini de Castro é psicóloga, gerontóloga social, doutora em pedagogia e especialista em orientação de grupos e aconselhamento (California State University, CSU, Estados Unidos).


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